segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

PRISÕES

Certamente ser manifesta escolha, ações que necessariamente entrelaçam a nossa consciência coletiva e individual. O coletivo é cogitado a todo o momento transformando-nos em meros receptores de ser o que é pré-estabelecido. Concepções maquiáveis de uma sociedade satisfeita com o ser subordinado ao ter. Partindo dessa consciência coletiva cria-se o indivíduo individualizado individualista no mundo do ter para ser, e, nessas escolhas de ações o coletivo nos facilita a manifestar o ser que somos tendo sempre mais. Ter: talvez seja essa a mais incessante invenção do mundo moderno. Seremos todos sucumbidos pelo desejo de ter para ser.... 
A carta foi a primeira notícia que dera a ela desde o dia em que saiu para visitar uns amigos. Estava postada com um selo nunca visto, seus olhos lânguidos e fixo naquele papel identificaram o portal para onde ele fora. Suas mãos molhadas fez escorrer naquele recibo a lembrança de uma vida. A escrita ia perdendo sua forma sendo apenas um papel manchado pelo tempo. Só restou o selo com aquela imagem típica do lugar onde ele estara.  




COTIDIANO

"Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode às seis horas da manhã,Me sorri um sorriso pontualE me beija com a boca de hortelã.
 Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher.
Diz que está me esperando pr'o jantar
E me beija com a boca de café.


Todo dia eu só penso em poder parar;
Meio-dia eu só penso em dizer não,
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão.


Seis da tarde, como era de se esperar,
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão.


Toda noite ela diz pr'eu não me afastar;
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor.


Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode às seis horas da manhã,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã.


Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher.
Diz que está me esperando pr'o jantar
E me beija com a boca de café.


Todo dia eu só penso em poder parar;
Meio-dia eu só penso em dizer não,
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão.


Seis da tarde, como era de se esperar,
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão.


Toda noite ela diz pr'eu não me afastar;
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor.


Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode às seis horas da manhã,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã". (Chico Buarque)